Segunda-feira, 09h25min.
É a quarta vez no ano que Paulo não vai trabalhar.
Um bom funcionário.
Eficiente. Inteligente. Pontual. Cumpridor de suas tarefas. Responsável.
Mas Paulo tem um filho doente. Bronquite asmática. Um problema que se agrava no inverno. E Paulo falta ao trabalho para que seu filho não lhe falte.
Por duas vezes, o menino poderia ter morrido durante crises mais agudas. Em ambas, foi a eficiência de Paulo que salvou a vida do filho. Soube identificar o agravamento a tempo e correu com o garoto para o hospital. Em uma dessas vezes, a morte poderia ter ocorrido nas quase quatro horas de fila. Deram sorte.
Paulo faz falta para a empresa.
O trabalho faz falta para Paulo.
O filho fará mais falta ainda.
O cidadão saudável se desenvolve, produz, contribui, consome.
Uma sociedade formada por homens saudáveis se desenvolve, produz, contribui, consome.
O problema é que uma sociedade saudável reivindica, não se contenta e vive mais tempo. E, quanto mais tempo vive, mais caro fica o cidadão para o Estado.
Se ele tem um carro, exige ruas e estradas decentes.
Se ele tem uma casa, exige água, esgoto, luz, transporte, segurança, limpeza urbana.
Mas se ele não faz parte da sociedade que tem carro e casa, ele não tem asfalto nem na porta onde mora. Usa um transporte coletivo precário. E, muitas vezes, se contenta. Vira massa de manobra. E vive menos. Vivendo menos, custa menos.
Numa lógica de curto prazo, parece mais barato pagar hospitais e remédios do que oferecer urbanização, saneamento básico, transporte de qualidade ou uma possibilidade real de acesso à moradia e mobilidade.
A empresa pensa em oferecer um plano de saúde para Paulo e para os outros funcionários. Mas isso ainda custa caro.
Demitir Paulo custa caro para a empresa.
Custa caro para o Estado.
E pode custar caro para a sociedade.
Segunda-feira, 18h00min.
Fim de expediente. Ninguém conseguiu falar com Paulo. O celular está desligado. Não há telefone em casa.
Foi a quarta vez no ano que Paulo não trabalhou.
E a terceira vez que quase perdeu o filho.
Um bom funcionário.
Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja através de observação, vivência, informação, comunicação.
A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.
(Originalmente publicado em 29/03/2008)
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