VOZES DA MINHA CABEÇA

Categoria: Série Teorias da Conspiração

Uma reflexão sobre como crenças, versões da história, consumo e poder moldam a percepção da realidade — e o limite da nossa suposta liberdade.

Sete artigos sobre como o mundo nos ensina a acreditar antes de nos ensinar a pensar.

Questionamento honestos sobre a ideia de liberdade num mundo moldado por versões, consumo e poder.

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 6ª PARTE – ÓPIO

    “ESTE PRODUTO CONTÉM MAIS DE 4.700 SUBSTÂNCIAS TÓXICAS, ALÉM DE NICOTINA QUE CAUSA DEPENDÊNCIA FÍSICA OU PSÍQUICA. NÃO EXISTEM NÍVEIS SEGUROS PARA O CONSUMO DESTAS SUBSTÂNCIAS.”

    É exatamente isto que está escrito no cigarro.

    Mais de 4.700 substâncias tóxicas. Um número tão vago que poderia significar dez mil. Mas está lá. Letras grandes, brancas, em fundo azul. E, mesmo assim, continuam vendendo.

    Na cerveja consta apenas um discreto “este produto destina-se ao público adulto” e um “beba com moderação”, ambos pouco visíveis. Se não procurar, nem percebe. Não há sequer um alerta explícito de que a venda é proibida para menores de 18 anos.

    Não vou me dar ao trabalho de pesquisar e divulgar estatísticas sobre mortes provocadas pelo consumo de cigarro e de bebida alcoólica. Basta observar o cotidiano. A cerveja, inclusive, é amplamente consumida, também por uma grande parcela de menores de idade.

    Ou seja, o cidadão pode ser viciado em cigarro e em bebida. O motivo é simples: ambos dão lucro. São produtos que contribuem significativamente para a arrecadação de impostos municipais, estaduais e federais. E, ainda assim, permanecem altamente rentáveis.

    Quem, em sã consciência administrativa e arrecadatória, teria coragem de mexer num negócio assim?

    A maconha, por outro lado, é tratada como crime grave. Associada ao tráfico de drogas, de armas e ao crime organizado. O sujeito flagrado com pequenas quantidades para consumo próprio é enquadrado de forma semelhante àquele envolvido em grandes esquemas de tráfico.

    Quando se trata de cigarro e bebida, a lógica é outra. A responsabilidade é transferida integralmente para o indivíduo. Quer consumir? Consuma. O problema passa a ser seu.

    Mesmo que o consumo transforme uma parcela significativa da população em doentes, parece mais conveniente arcar com esse custo social a médio e longo prazo do que abrir mão da arrecadação imediata.

    Ninguém planta cevada no quintal e fabrica cerveja.
    Ninguém planta tabaco no quintal e fabrica cigarro.

    Combate-se com muito mais rigor o contrabando de cigarros do que crimes patrimoniais de grande impacto. É simples entender: quando o cigarro entra sem imposto, o Estado perde. Quando um carro é roubado e você compra outro, a arrecadação continua.

    A maconha, ao contrário, pode ser plantada. Não gera imposto. Ainda não. Mas quando houver uma forma eficiente de tributar, qualquer um poderá comprá-la legalmente. E, então, a responsabilidade será novamente sua se quiser consumir ou não.

    O PODER CONTÉM MAIS DE 4.700 SUBSTÂNCIAS TÓXICAS, ALÉM DE APEGO A UM ALTO PADRÃO FINANCEIRO, E CAUSA DEPENDÊNCIA FÍSICA OU PSÍQUICA. NÃO EXISTEM NÍVEIS SEGUROS PARA O CONSUMO DESTAS SUBSTÂNCIAS.

    Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja através de observação, vivência, informação, comunicação.

    A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.

    (Originalmente publicado em 06/04/2008)

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO – ENFIM…

    Daria para passar a vida inteira escrevendo teorias da conspiração. Das que tentam explicar o movimento da Terra às que atribuem atentados terroristas a acidentes aéreos, como já circulou pela internet em diferentes momentos.

    Mas é preciso enxergar com clareza que o mundo contemporâneo nada mais é do que uma versão modernizada — e altamente sofisticada — dos antigos impérios. E, como nos impérios, a característica central continua sendo o domínio.

    Os métodos utilizados hoje por grandes corporações multinacionais não são tão diferentes das antigas legiões. Mudaram as armaduras, mudaram as armas, mudaram os discursos. O objetivo permanece.

    As armas atuais são mais eficientes do que os mísseis. Elas não matam. Elas dominam. Não destroem territórios físicos, mas ocupam o imaginário coletivo por meio da difusão de culturas, hábitos e padrões de consumo.

    Quando grandes marcas globais tentam impor produtos e comportamentos a diferentes sociedades, não estão apenas vendendo mercadorias, mas exportando modos de vida. Às vezes funciona. Às vezes não. Mas a tentativa é constante.

    Enviar redes de fast-food, marcas, estilos e valores para outros países é uma forma moderna de expansão cultural. E esse é apenas um entre inúmeros exemplos.

    É uma integração que, ao mesmo tempo, aproxima e submete.

    Somos vítimas permanentes das teorias da conspiração porque elas são criadas exatamente para isso: para que sejamos apenas vítimas. Para que busquemos culpados externos enquanto ignoramos o sistema que nos molda diariamente.

    O time para o qual você torce, a novela que assiste, o celular que prefere, o sapato que compra, o corte de cabelo que usa, o combustível que coloca no carro, o próprio carro — tudo isso chegou até você por meio de um sistema psicossocial, cultural e simbólico extremamente complexo, que o enquadrou em determinados padrões de comportamento e passou a oferecer as formas possíveis de pertencimento.

    E como toda teoria da conspiração se sustenta na ideia de que existe sempre uma hipótese oculta por trás dos fatos, os fatos, em si, nunca são exatamente como parecem ser.

    Não, você não é um cidadão livre.

    Você tem o direito de formar e expressar suas opiniões com base naquilo que consegue perceber do mundo em que vive — por meio da observação, da vivência, da informação e da comunicação. E isso significa, necessariamente, que você só conhece as coisas importantes da maneira como elas chegam até você.

    Somos a sociedade do consumo. E, compulsoriamente, consumimos também as teorias da conspiração.

    Enfim…

    Originalmente publicado em 13/04/2008)