VOZES DA MINHA CABEÇA

Categoria: Série Teorias da Conspiração

Uma reflexão sobre como crenças, versões da história, consumo e poder moldam a percepção da realidade — e o limite da nossa suposta liberdade.

Sete artigos sobre como o mundo nos ensina a acreditar antes de nos ensinar a pensar.

Questionamento honestos sobre a ideia de liberdade num mundo moldado por versões, consumo e poder.

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO – PRÓLOGO

    Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja por meio de observação, vivência, informação, comunicação.

    A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.

    Se você é milionário, o som do brinde de champanhe em taças de cristal lhe é comum.
    Se você é favelado, o som de tiros de AR15 lhe é inconfundível.

    O acesso à informação é tudo.

    Para uma parcela significativa da população, o político é percebido como corrupto, desonesto, ladrão.
    Alguém que desvia, rouba, furta e usufrui os bens do Estado em favor próprio.

    Os bens usurpados do Estado, financiados por todos, deixam de servir à população que os gera e passam a enriquecer quem deveria empregá-los em benefício coletivo.

    O resultado dessa lógica é sentido no cotidiano: falta acesso a um sistema de saúde decente; a violência e a insegurança avançam sobre os lares; uma legislação trabalhista atrasada já não assegura remuneração justa; os mais humildes têm dificuldade até para garantir alimentação básica; ruas e estradas são deficientes; o transporte público é caro e ineficiente; e, ao final do mês, mal sobra esperança.

    A falta de educação limita a capacidade de compreensão da realidade, fazendo com que as pessoas percebam o mundo apenas a partir do que conseguem observar, vivenciar, ouvir e do tipo de informação que recebem por meio dos canais aos quais têm acesso.

    O som do brinde de champanhe em taças de cristal continua comum a poucos, enquanto os tiros de AR15 se tornam cada vez mais inconfundíveis para muitos.

    Lembre-se, você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões.

    (Originalmente publicado em 02/03/2008)

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 2ª PARTE – PAPAI NOEL

    Até os seis, sete anos, ou mais um pouquinho, a maioria de nós acredita em Papai Noel.

    Papai Noel é a redenção.

    Vale a pena ficar bonzinho. Vale a pena tomar banho todos os dias, dormir na hora certa, não brigar com os irmãos, tirar boas notas, ser um filho carinhoso, um sobrinho educado, um neto devotado, um amigo do peito. Afinal, o cara é Papai Noel.

    Papai Noel é merecimento. Um troféu pela boa pessoa que a gente deve ser.

    Até os quatro, cinco anos de idade a gente acredita ainda em coelhinho da Páscoa. A gente só vê mesmo o ovo. O coelhinho da Páscoa propriamente dito, tal qual Papai Noel pondo presentes na árvore, ninguém nunca viu.

    E o bicho-papão, que por tantos anos nos persegue? Sem falar em assombrações, espíritos de luz, colégio interno, corte de mesada… Sempre nos assombrando.

    Mas eis que chega um dia no qual descobrimos que tudo isso era uma farsa.

    Papai Noel era uma farsa. Aquele gordinho simpático era apenas um ator servindo ao mundo capitalista. O vovô que todo mundo acha que merecia ter tido. Um ator.

    A partir daí, você começa a ouvir explicações para tudo. Que o coelhinho da Páscoa não passa de um símbolo criado para movimentar a indústria do chocolate. Que assombrações são recursos narrativos, efeitos especiais, histórias repetidas para alimentar o imaginário coletivo. Que colégio interno é lugar de formação rígida, quase um treinamento de comportamento. Que o corte de mesada é uma introdução precoce ao mundo dos negócios.

    Nesse mundo, presente de Natal tem preço, ovo de Páscoa tem preço e cada um que se vire com suas próprias assombrações e espíritos de luz.

    Geralmente, por força do costume familiar, você acaba descobrindo afinidade com uma religião. E descobre Deus. E descobre que, ao contrário do Papai Noel e do coelhinho da Páscoa, Deus continua existindo. E essa religião dita o modo como você deve adorar a Deus. E dita o modo como você deve se relacionar com o mundo.

    E tanto quanto o Papai Noel colocando presentes na árvore e o coelhinho da Páscoa entregando os ovos, você não vê Deus. Mas Deus você sente. O nome disso é fé.

    Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja através de observação, vivência, informação, comunicação.

    A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.

    (Originalmente publicado em 11/03/2008)

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 3ª PARTE – COLOMBO

    Quem descobriu o Brasil?

    Quando pequenos, parece que não somos considerados inteligentes enquanto não conseguimos responder a essa pergunta. E, quando finalmente conseguimos, ninguém nos poupa de perguntar, repetidamente, quem descobriu a América.

    Então crescemos e descobrimos que não necessariamente foi Cabral quem descobriu o Brasil, e muito menos terá sido Colombo a descobrir a América, que, inclusive, recebe esse nome em homenagem a Américo Vespúcio, que teria chegado lá antes. E por que continuamos a dizer que foi Colombo quem descobriu a América? E, se foi ele, por que não se chama Colômbia em vez de América?

    Mas, seja como for, é isso que nos ensinam, é isso que querem que saibamos e é isso que nós mesmos transmitimos aos nossos filhos, repetindo as mesmas perguntas simplificadas.

    No ensino fundamental aprendemos que o resultado da soma de dois mais dois é quatro. Já no ensino médio, a resposta não precisa ser necessariamente essa. E no ensino superior, essa mesma conta pode resultar em números jamais imaginados.

    Como vemos, o que nos é ensinado em um dado momento é, antes de tudo, uma questão de elaboração e conveniência. Para que explicar a uma criança de sete anos que, na verdade, não foi Colombo quem descobriu a América, se é isso que ela e todos ao seu redor aprendem antes de descobrir que foi Américo Vespúcio?

    E quantas são as meias verdades convenientes que aprendemos em nossa primeira infância? E quantas são as meias verdades que continuamos a aprender durante o resto de nossas vidas?

    Os Estados Unidos invadiram o Iraque em busca de armas nucleares que nunca existiram. Esse fato entrará para os livros de história e será contado de acordo com a conveniência de quem o narra.

    Em determinadas versões, será tratado como uma das mais cruéis invasões que um país já fez a outro. Em outras, contará que a invasão libertou o povo iraquiano de um ditador. Uma mera questão de conveniência.

    Com justificativas semelhantes, povos e nações ao longo da história foram invadidos, dominados, fragmentados ou subjugados. Mudam os atores, mudam os discursos, mas a lógica permanece: cada versão dos fatos atende a um interesse específico.

    Enquanto isso, nossas crianças continuam a aprender que Cabral descobriu o Brasil e que Colombo descobriu a América, até que alguém desminta ou que a curiosidade pela verdade as leve a descobrir que, no final das contas, muitas das versões que conhecemos sobre os fatos históricos não são exatamente como nos foram contadas.

    Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja através de observação, vivência, informação, comunicação.

    A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.

    (Originalmente publicado em 23/03/2008)

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 4ª PARTE – VERDADES E MENTIRAS SOBRE A MENTIRA

    Já ouviu dizer que mentira tem perna curta? Será que isso é verdade? Ou também existe mentira de perna longa?

    Você nem precisa se esforçar muito para lembrar de ter contado uma mentira que nunca ninguém descobriu.

    Tanto quanto a verdade, a mentira é um recurso do comportamento humano.

    Estudos e observações sobre o comportamento indicam que poucas pessoas conseguem conversar por longos períodos sem recorrer a algum tipo de mentira, por mais inocente, inofensiva, irrelevante e — aí está o mais grave — desnecessária que ela seja.

    Mentiras podem machucar, magoar, iludir, envolver, seduzir, entreter, lesar, mas também podem não causar coisa alguma.

    Existem mentiras úteis, inúteis, bem-intencionadas e mal-intencionadas.

    Na categoria das úteis estão aquelas usadas para escapar de situações indesejáveis, evitar constrangimentos ou mesmo para nos valorizar de alguma forma. Um exemplo clássico é dizer que conhecemos alguém que, na verdade, não conhecemos, desde que isso seja difícil de checar. Quantas pessoas não se apresentam melhor dizendo que prestaram consultoria para grandes empresas? Fica bonito na fita.

    As mentiras inúteis não servem para nada. Mente-se por hábito. Não para disfarçar, não para fugir, não para ganhar vantagem. De repente, no meio de uma conversa, alguém mente sem qualquer propósito. E o curioso é que, geralmente, todo mundo já sabe que aquela pessoa mente mesmo.

    As mentiras bem-intencionadas talvez sejam as mais curiosas. Muitas vezes inúteis, mas psicologicamente poderosas. É a história do beijinho que passa. Ou aceitar comer algo que se detesta só porque é a primeira vez que se almoça na casa da sogra. Para que comer jiló se você não gosta de jiló?

    E as mal-intencionadas? Essas nem precisam de ilustração. Todos conhecemos um vasto repertório de mentiras que sempre nos lesam de alguma maneira.

    Tempos modernos.

    A grande injustiça que se faz à mentira é esquecer que, tanto quanto a verdade, ela ajudou a construir a história do mundo. Fatos históricos foram sustentados por mentiras. Personagens históricos também o foram. E precisamos ser honestos ao tratar a mentira nesse contexto, pois ela continua existindo na nossa sociedade e, de forma hipócrita, nas nossas relações.

    A verdade é uma mentira bem contada. A mentira é a verdade que, na verdade, o mentiroso gostaria que fosse.

    O certo é que ninguém sabe o tamanho das pernas da mentira.

    Na velocidade de um mundo onde nenhuma verdade é eterna, por que seria eterna a mentira?

    Preferencialmente, não minta. Mas, se um dia tiver que mentir, por favor, minta de verdade.

    Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja através de observação, vivência, informação, comunicação.

    A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.

    (Originalmente publicado em 28/03/2008)

  • TEORIA DA CONSPIRAÇÃO 5ª PARTE – O FILHO DE PAULO

    Segunda-feira, 09h25min.

    É a quarta vez no ano que Paulo não vai trabalhar.

    Um bom funcionário.
    Eficiente. Inteligente. Pontual. Cumpridor de suas tarefas. Responsável.

    Mas Paulo tem um filho doente. Bronquite asmática. Um problema que se agrava no inverno. E Paulo falta ao trabalho para que seu filho não lhe falte.

    Por duas vezes, o menino poderia ter morrido durante crises mais agudas. Em ambas, foi a eficiência de Paulo que salvou a vida do filho. Soube identificar o agravamento a tempo e correu com o garoto para o hospital. Em uma dessas vezes, a morte poderia ter ocorrido nas quase quatro horas de fila. Deram sorte.

    Paulo faz falta para a empresa.
    O trabalho faz falta para Paulo.
    O filho fará mais falta ainda.

    O cidadão saudável se desenvolve, produz, contribui, consome.
    Uma sociedade formada por homens saudáveis se desenvolve, produz, contribui, consome.

    O problema é que uma sociedade saudável reivindica, não se contenta e vive mais tempo. E, quanto mais tempo vive, mais caro fica o cidadão para o Estado.

    Se ele tem um carro, exige ruas e estradas decentes.
    Se ele tem uma casa, exige água, esgoto, luz, transporte, segurança, limpeza urbana.

    Mas se ele não faz parte da sociedade que tem carro e casa, ele não tem asfalto nem na porta onde mora. Usa um transporte coletivo precário. E, muitas vezes, se contenta. Vira massa de manobra. E vive menos. Vivendo menos, custa menos.

    Numa lógica de curto prazo, parece mais barato pagar hospitais e remédios do que oferecer urbanização, saneamento básico, transporte de qualidade ou uma possibilidade real de acesso à moradia e mobilidade.

    A empresa pensa em oferecer um plano de saúde para Paulo e para os outros funcionários. Mas isso ainda custa caro.

    Demitir Paulo custa caro para a empresa.
    Custa caro para o Estado.
    E pode custar caro para a sociedade.

    Segunda-feira, 18h00min.

    Fim de expediente. Ninguém conseguiu falar com Paulo. O celular está desligado. Não há telefone em casa.

    Foi a quarta vez no ano que Paulo não trabalhou.
    E a terceira vez que quase perdeu o filho.

    Um bom funcionário.

    Você é um cidadão livre, com direito a expressar suas opiniões baseado naquilo que você consegue perceber do mundo em que vive, seja através de observação, vivência, informação, comunicação.

    A forma como você percebe o mundo está diretamente relacionada com o seu nível de informação, recebido diretamente pelos canais de comunicação de que dispõe e socialmente influenciado pelo que vivencia, pelo que observa, pelo que ouve.

    (Originalmente publicado em 29/03/2008)